sexta-feira, 12 de julho de 2013

Mapa das Estrelas

1963

"Ah, Andrômeda? Aquela menina meio esquisita e diferente da rua B20?"
Tá aí uma descrição bem tipica e fadiga sobre essa incrível garota que odiava ser chamada ou rotulada como "diferente". Todos diziam que ela não gostava de "coisas de menina". Mas, por favor, como se existisse tal coisa. Existem roupas femininas, perfumes femininos e alguns outros detalhes que diferenciam a mulher do homem. Mas "coisas de menina" não, isso é só invenção de pessoas que gostam de ser rotuladas como "maturas e adultas", porém, mal sabem o que estão perdendo quando se brinca de carrinho.
Andrômeda tinha apenas 13 anos de idade, e gostava sim de coisas femininas, usava vestidos e comprava sapatos quando a mãe chamava. Só não a despertara tamanho interesse nessas coisas tão comuns, coisas que todos fazem, coisas que são necessárias, não coisas que precisem chamar sua atenção a ponto de ir ao quarto cor-de-rosa de uma amiga e dar uma olhada nas próximas "tendências".
Não, essa não era Andrômeda.
Ela gostava de entrar no quarto do irmão mais velho, Heitor, e pegar seu telescópio escondido, para observar as estrelas na madrugada de sábado. E no domingo ela completava seu "Mapa de estrelas" e dava um nome a cada uma delas. No seu ultimo domingo atualizando o mapa, nomeara as estrelas que vira com o nome de cada membro da sua família.
Margarida, Antonio, Eleonora, Heitor. Essas eram as mais novas estrelas de Andrômeda, e eram também as favoritas.
Uma pena que não tivessem mais garotas como ela, era sozinha, não tinha amigos ou amigas, era apenas aquela que gostava de observar as estrelas e se imaginar tocando elas. E por conta de tais pensamentos, se achava incapaz de fazer amigos na escola, era difícil para se comunicar pois tinha ideias tão diferentes de todos aqueles ao seu redor, e decidiu se isolar, tinha medo de as pessoas a acharem mais "tapada" do que já achavam que era.
Em uma tarde de segunda, Andrômeda voltava da escola a pé (já que presumiu que o pai esquecera de a buscar, de novo) e quando chegou em casa, sentiu todas as estrelas que observara e nomeara da ultima vez, caírem aos seus pés.
Viu sua casa numa cor cinza, com uma mobília totalmente destruída e o telescópio do irmão que tanto amara, queimado e acabado. Daquela segunda-feira em diante, sua vida nunca mais foi a mesma.

Passou 2 anos vivendo em orfanatos, durante esse tempo, tentou se adaptar a casas de famílias. Mas ela não queria, ela não sentia uma vida familiar ali dentro. Que tipo de vida era aquela, onde você não podia pegar o telescópio de irmãos escondido pois não tinha irmãos?
 A última vez que Andrômeda foi adotada foi por um velho casal simpático, Sra. Inês e Sr José eram ótimas pessoas, foi uma das casas onde mais passou tempo. Mas nunca se sentia acomodada, ficou lá pois estava cansada de ir e vir tantas vezes. Ela desistiu, ela aceitou tudo que a foi imposto,-Andrômeda, você está ficando velha demais para orfanatos, vá para essa família se quer continuar tendo um teto sobre sua cabeça. E viveu com esses senhores durante 6 meses.
 Aos 16 anos, ela escreveu uma carta:
"Querida Sra. Inês e querido Sr. José, 
        Estou escrevendo essa carta com a finalidade de fazer com que nenhum de vocês se sintam culpados pelo o que aconteceu (ou está prestes a acontecer, no meu caso). O fato é, eu sinto muita falta da minha família, vocês foram como uma, mas a saudade da minha verdadeira aumentou demais.
     Quero que saibam que o cuidado de vocês comigo foi magnífico, mas eu não posso e nem quero continuar, o que eu senti/sinto não é um simples coração quebrado por um namorado, é a falta de uma família nele. É a falta dos meus pais, da Eleonora e do Heitor. É uma falta inexplicavelmente grande, uma falta tão grande que faltam palavras pra descrever, é uma falta de compaixão por não poder mais viver com eles, é uma falta de vida dentro de mim.
    Desde que vi o antigo telescópio do Heitor queimado e acabado no chão, senti que as minhas estrelas (as minhas, todas aquelas que nomeei no mapa que segue essa carta) estavam lá, destruídas, em cinzas, foi como se elas tivessem perdido toda a velocidade no espaço e caído bem aos meus pés. Elas morreram. Assim como eu.
Com rancor (já que presumo que vocês não verão amor em tamanho ato), Andrômeda."

Assim, Andrômeda subiu na cadeira, colocou a corda em volta de seu pescoço, e deu seu último suspiro de vida. Acreditando que veria sua família novamente.

Todos dizem que até hoje Andrômeda brilha com sua verdadeira família, e que não é uma estrela. Mas sim uma das mais belas constelações. 

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