sábado, 24 de janeiro de 2015

Desde que criara consciência, para Maria, a vida não fazia muito sentido. "Você vive, reproduz e morre" ela conseguia ouvir sua professora de ciências repetindo isso toda noite antes de ir dormir, "não sei nem mesmo começar a viver, quanto mais o resto" pensava ao colocar a cabeça no travesseiro.
Você vive. Maria vive, mas não com essa certeza de vida, não faz grandes feitos, não mudou o curso da história da humanidade, mas vive. Se forma na faculdade, arranja um  emprego, se casa.
Reproduz. Não se dizer o que exatamente deu errado na vida de Maria nesse ponto da história de qualquer ser humano, mas deu, estava na banheira quando sentiu uma imensa dor, viu o sangue e depois disso, lembra de ter acordado no hospital. Era a terceira vez que ela tentava e falhou.
Ao invés do estado de reprodução, para em um muitos de viver, o chamado " depressão", todos os humanos chegam nele em algum momento, seja mais cedo ou mais tarde. Maria toma pílulas e agora se pergunta se o estado da morte está próximo.
E morre. Maria não vê mais sentido nesse ciclo (se é que alguma vez alguém já viu) ela sente um fracasso, já estava a alguns meses sem tomar seus remédio e mesmo os tomando ela se sentia um fracasso. Desceu as escadas até a garagem, desceu, desceu, desceu, desceu, se viu ligando o carro, se viu sentada ao lado do escapamento fumando um cigarro, ao final do primeiro cigarro, já não tinha mais consciência para o segundo.
Uma semana depois, ninguém se lembrou de Maria.

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